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A atmosfera de Leave Her to Heaven lembra-nos as obsessões das pessoas habituadas a manipular todos à sua volta para conseguir o que querem. Geralmente estragam a vida aos que com eles convivem ou que caem na sua teia. Tal como no Sunset Boulevard, é a lógica da mosca e da aranha. Pensei em Sunset Boulevard pelas semelhanças da loucura do manipulador, pela ausência de vitalidade, de sentimentos, de afecto. Só que aqui a personagem, também escritor, salva-se no final, mas não sem passar um mau bocado.

 

O manipulador está geralmente numa posição de aparente poder. Digo aparente porque esse poder é alucinado, não é real. Mas o que mais surpreende é a ingenuidade dos que se deixam enredar na teia da manipulação emocional.

Personagens narcísicas que não gostam de ser contrariadas, que se julgam o centro do mundo, que desconfiam de tudo e todos, e que eliminam quem consideram um obstáculo, aqui de forma premeditada. E o obstáculo é qualquer pessoa que ocupe a atenção da pessoa-objecto da sua obsessão. E pior ainda se for alguém que seja querido pela pessoa-objecto da sua obsessão. 

A atmosfera do filme acompanha o tecer dessa teia. Quase a sentimos a formar-se à volta das personagens, da casa, do escritor. Os afectos familiares são afastados, uns de forma brusca outros de forma trágica, até ao isolamento de uma vida onde só cabem dois.

 

Quando alguém manipulador, logo incapaz de amar porque amar não é controlar e limitar, percebe ou pressente o amor genuíno em outros, o ódio que daí nasce é destruidor. Aqui trata-se de uma vingança que possa impedir a felicidade de outros. Se eu não te posso ter ninguém pode, é a lógica.

O que o manipulador não percebe é que não é uma questão de posse. Ama-se quem é livre de nos amar ou não. O amor surge naturalmente, de forma natural, familiar. Apoiam-se um ao outro, animam-se, inspiram-se.

 

A cena final é uma das minhas preferidas. Depois de todas as atribulações e sofrimento, o encontro no lago (adoro lagos e são sempre cinematográficos). Ele vem a remar um barquinho, ela espera-o ansiosa, no seu vestido branco, no pequeno cais de madeira. Abraçam-se. E vemos aquele céu sobre eles e sobre nós.

 

 

 

 

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publicado às 00:10

Mrs. Muir - Gene Tierney

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.11.09

 

Desafiada por um amável viajante do Rio sem Regresso, dedico esta breve paragem da jangada, a Mrs. Muir.

Digo Mrs. Muir e não The Ghost and Mrs. Muir, porque a personagem que me fascinou quando vi e revi o filme foi sempre Mrs. Muir.

E digo Mrs. Muir-Gene Tierney porque aqui são duas e uma só, só podia ser Gene Tierney esta Mrs. Muir, a jovem viúva, mulher lindíssima, vestida de negro, véu no chapéu e tudo, aparentemente tão frágil, mas surpreendentemente determinada. Uma das personagens mais fascinantes do Cinema. Sem dúvida, uma das personagens femininas mais poéticas e cinematográficas.

 

E depois há o mar... Mrs. Muir terá ficado desde logo presa àquele mar... a brisa, a maresia, o lugar certo para passar o resto dos seus dias, dedicar-se à educação da filha, com a ajuda da governanta fiel, naquela paz...

Se a casa está acessível no mercado por causa de um fantasma de um qualquer Capitão do mar... não importa, a casa é perfeita. Mrs. Muir é uma mulher muito prática, não se detém em pormenores desses.

A família do marido morto ainda tenta demovê-la, uma mulher sozinha, ali num sítio isolado, que loucura!

Mas Mrs. Muir está decidida e nada a poderá demover: aquele é o seu lugar, a casa certa.

O seu rosto é sempre tranquilo, um leve sorriso anima-o sempre... e mesmo na hora do susto, isto é, em que qualquer pessoa medianamente corajosa gritaria de susto ao ver o fantasma... Mrs. Muir responde-lhe à letra, que não se vai deixar intimidar, faça ele o que fizer.

 

Qual é o fantasma, ainda por cima de um Capitão irascível e mal-humorado, que resiste a uma mulher que o enfrenta sem qualquer receio? Um fantasma que se preze, digamos assim, ficaria completamente desarmado em frente de Mrs. Muir.

O Capitão não será excepção. E se é possível imaginar um verdadeiro fantasma apaixonado, este é o filme em que isso acontece. Nunca mais em Cinema se verá assim um fantasma a sério, rendido a uma mulher. Ainda por cima uma mulher tão jovem e de ar tão frágil. E que tinha tido o desplante de lhe invadir a casa e a sua divisão preferida da casa, que também era a dela, a do andar de cima onde se via o mar e onde passariam a conversar tranquilamente como um velho casal.

 

Os dias passam. E nada parece perturbar a paz da casa, de uma vida simples e tranquila. E das suas conversas amenas e acolhedoras.

Até surgir o factor perturbação: um homem real, de carne e osso, e com isso nenhum fantasma pode competir.

Mrs. Muir é jovem, e numa mulher jovem há sempre uma esperança secreta, de voltar a encontrar uma companhia. E este homem soube insinuar-se na sua vida, torna-se mesmo insistente.

 

E aqui estranhamos o paradoxo na personagem: como é que uma mulher tão prática e sensata se deixa seduzir por um homem aparentemente tão banal e desinteressante? É este paradoxo o mais irritante para mim, talvez porque também o vemos na vida real: um homem tão sinuoso e falinhas mansas conseguir iludir uma mulher como Mrs. Muir...

Mas é mesmo isso que acontece. Mrs. Muir, descoberto o terrível (e medíocre) equívoco, fecha-se ainda mais no seu mundo, na casa, na dedicação à filha e desiste da ideia de uma companhia masculina. Vemos, pela primeira vez, o seu rosto fechar-se, quase triste, da desilusão mais profunda, mas a estupidez, insensibilidade e aridez do mundo não a podem atingir ali. Ali estão a salvo.

Talvez parte daquela tristeza se deva à ausência do fantasma, que desaparecera para sempre depois de a ver noutros braços. Nem um fantasma é imune aos ciúmes, e isso é mesmo muito masculino.  (1)

Pode até ser mais romântico ver aquela mulher envelhecer sozinha... bem, não está propriamente sozinha, tem o mar... mas as conversas amenas e tranquilas devem ter-lhe feito imensa falta...

 

Penso que todos os que amam este filme registaram esse final, da descida das escadas, dos dois fantasmas finalmente juntos...  (2)

Também penso que se lembram da música, magnífica, e da presença daquele mar... a envolver tudo...

E que não terão ficado indiferentes ao fascínio daquela personagem feminina, Mrs. Muir.

Toda a narrativa está perfeita. Os cenários. Os diálogos. A montagem. A atmosfera daquela casa.

Este é o Cinema que de certo modo nos transformou, aos que se deixaram fascinar pela sua narrativa própria, os enquadramentos, o encadear das cenas, os sons...

Era impossível não nos ter transformado para sempre...

 

 

 

(1) Mas o impacto no nosso fantasma, da visão de Mrs. Muir com esse homem de carácter duvidoso, será apenas ciúme? Ou um desgosto mais profundo? Desaparecer para não ver a sua amada nos braços daquele homem?

(2) A eterna juventude de um certo romantismo, na idade do fantasma de Mrs. Muir. Ao meu olhar observador, que procura o verosímil mesmo em fantasmas, achei sempre que o fantasma de Mrs. Muir teria de ter a idade em que a mesma morreu. Certamente o fantasma do Capitão correspondia à idade exacta do seu desaparecimento terreno... ou não?

 

 

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publicado às 14:17


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